Viagens

Como é morar fora do Brasil?

Já pensou em morar em outro país mas não tem coragem de encarar essa aventura? O blog Opte+ conversou com Fê La Salye, especialista no assunto, que compartilha seus perrengues e alegrias pra gente. Imperdível!

Ela saiu do Brasil há oito anos. Ela é Fê La Salye, publicitária, hoje blogueira conceituada quando o assunto é morar fora, especificamente em Santiago do Chile. À frente do La Vida, a paulistana coloca em pauta os dilemas de morar fora, as alegrias, as diferenças culturais e tudo aquilo que faz parte do universo feminino em qualquer lugar do mundo: casamento, maternidade, carreira, entre tantos outros temas. Confira!

Morar fora é uma experiência de autodescoberta?
Ouso dizer que está entre as maiores oportunidades de autodescoberta. Morar fora permite saber até que ponto você é mais influenciado pela sua cultura nativa do que imagina, o quão tolerante pode ser ou precisa se tornar, quais habilidades ajudarão na imersão dessa nova cultura, o quão empático ou resistente ao novo você é e muito mais! É um exercício diário de autoconhecimento e aprimoramento pessoal.

E constante?
Não importa quantos anos você more fora, sempre haverá algo para ser melhorado e adaptado. É uma das maiores provas do quanto a humanidade pode ser moldável.

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Quais mudanças foram as mais difíceis no primeiro ano?
Não apenas aprender, mas ser fluente em um novo idioma. Trabalho com comunicação, então, o tempo de aprendizagem de um idioma é mais urgente do que para quem vai usá-lo de forma, digamos, mais corriqueira. É difícil, inicialmente, aceitar que a única forma de pensar e falar como um nativo é se desprender completamente de seus conceitos, referências, comparações e significados adquiridos até então porque tudo isso está atrelado ao seu idioma nativo.

É sair da zona de conforto totalmente…
Aprender um idioma morando em outro país é muito diferente de aprender em seu país nativo porque te obriga a se esvaziar do que você foi e se tornou até então. No meu caso, essa foi a parte mais difícil, e que depois facilitou todo o resto, inclusive aceitar as diferenças culturais. Muitas pessoas teriam uma experiência melhor ao morar fora se percebessem a importância de se entregar sem reservas ao aprendizado de uma nova língua, porque ela é muito mais que gramática e sobrevivência. Nela está a base cultural, social e todos os códigos que você necessita nesse novo lugar.

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Como lidar com a saudade e, principalmente, com a culpa de deixar algumas pessoas?
Costumo dizer que a saudade é a única coisa que você não vai deixar de ter. Vai chegar o dia em que determinado hábito cultural não vai incomodar, que a comida local vai ser parte da rotina, que o idioma será algo automático e que a sua personalidade vai ficar mais parecida com essa cultura do que você é capaz de dimensionar, mas a saudade nunca será algo inexistente porque ela só precisa de um contato para se tornar realidade. Inclusive você vai sentir saudade dessa nova cultura quando precisar deixá-la.

A tecnologia ajuda a matar a saudade?
A tecnologia ajuda muito a manter vivos os laços que deixamos para trás, mas é preciso trabalhar a mente para deixar de lado a culpa. Todos nós precisamos fazer escolhas diárias que vão nos aproximar ou nos distanciar fisicamente de quem amamos e nem é preciso mudar de país para isso. A grande questão é perceber a tempo que presença não tem relação com o físico. No meu caso, morar fora fortaleceu minhas relações pessoais.

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De que forma?
O valor que dou para cada pessoa e momento é imensurável. Quando estou conversando com quem amo, seja por celular ou pessoalmente, estou 100% presente naquele momento. Além disso, cada encontro é como se fosse o último. Já não cabem desculpas como o trânsito, por exemplo. Inclusive as prioridades de passeio mudam. Cada vez que volto ao Brasil, meu prazer está em ficar em casa com a família ou conversando com os amigos. Eles são o motivo da minha viagem. A culpa cabe para quem tem esse privilégio diário e não o usa. Mudar minha cabeça em relação a isso me ajudou demais a fazer da saudade algo bom e não mais algo que determinaria quanto tempo eu aguentaria morar fora, como acontecia no primeiro ano.

Hoje, você voltaria a viver no Brasil?
Penso que, quanto mais tempo fora, mais difícil é voltar. Em média, você leva um ano para se adaptar no exterior, mas para se adaptar ao seu país nativo outra vez pode levar até dois anos, sem contar o risco de desenvolver a Síndrome do Regresso, que cada vez mais é comentada por psicólogos e psiquiatras.

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Por que isso?
Morar fora é desafiante em todos os sentidos e por isso mesmo também é muito bom. Todos os dias você tem a sensação de que está vivendo algo novo. Muitas vezes viajar se torna algo mais acessível, você convive com estrangeiros do mundo todo e muitas coisas tornam essa experiência enriquecedora; que acabam tornando difícil voltar para o Brasil ou para qualquer país de origem porque é como se você tivesse se tornado maior e não cabe mais no espaço que ocupava antes de sair. Sua mente, seus conhecimentos, suas experiências se ampliaram e agora você se sente apertado no lugar que desde sempre pareceu ser feito sob medida para você.

Que interessante…
É comum quem volta se sentir um peixe fora d’água, sem conseguir se encaixar no modo como as pessoas levam suas vidas. Nesse processo, vai surgindo a depressão, o isolamento e até mesmo a Síndrome do Pânico, especialmente se você teve a chance de morar em um país mais seguro. O medo de sair e acontecer alguma coisa aprisiona.

Dê outro exemplo.
A ideia de que o simples fato de usar o celular em vias públicas pode ser perigoso, sufoca. Sem contar que o excesso de qualificação profissional pode não ser um bom aliado. Quando você adquire experiências profissionais no exterior e fala um novo idioma, as empresas sabem do seu valor no mercado e muitas vezes elas não podem oferecer o padrão financeiro que você tinha no exterior. Parece inacreditável, mas para muitas pessoas é mais doloroso e arriscado voltar do que sair pela primeira vez.

Se pudesse dar um único conselho a quem está planejando morar fora, qual seria?
Planejamento. Isso de sair e tentar a sorte já não funciona há muitos anos. O mundo todo voltou a imigrar e as oportunidades ficaram mais escassas e competitivas. Considere a ideia de passar três meses no país que pretende morar antes de tomar essa decisão. Esse é o tempo ideal para ver as coisas com o olhar de morador e não de turista: saúde, educação, emprego, segurança, custo de vida.

Boa dica.
Tudo isso não se observa em detalhes em apenas uma semana de passeio. Outro conselho é interiorizar que você é o diferente nesse país. Logo, é você que tem que se adequar. Parece lógico, mas não falta estrangeiro querendo que um país inteiro se adapte a ele. Não conviver com pessoas do seu país durante o primeiro ano é essencial para se adaptar rapidamente. Se você sai do Brasil, mas vive numa colônia brasileira no exterior, você não vai experimentar essa nova cultura e seus desafios. E, por último, tenha a mente aberta e ao mesmo tempo vazia. Permita-se ser preenchido pelo novo sem reservas. Morar fora é morar dentro do novo. Sem isso você será um eterno estranho no ninho que não se sente bem no país nativo e menos ainda nessa nova cultura. Escolha morar dentro.

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